Querida Coach,

Eu tenho a impressão que pessoas muito inteligentes sempre tendem à arrogância e pessoas com muito poder sempre tendem à tirania. Estou eu certa?

Certa vez quando eu era menor fiz um curso de Liderança ao Extremo, onde eu e os demais participantes fomos colocados em situações de extremo cansaço, stress, fome, sede e frio para liderar nossas equipes. Durante 24 horas corridas, praticamente sem dormir, vivemos um curso incrível no 3º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais na Ilha do Governador.

Eu estava em grupo desafortunado que por sorte ou azar teve a maior quantidade de participantes que não sabia nadar e tinha algum problema de mobilidade, seja pela idade avançada ou limitação física. Foi uma tragédia, perdemos todos os desafios. Lembro-me inclusive que em uma atividade em que tínhamos que queimar uma folha de papel da forma mais rápida, invoquei da minha memória as aulas de química que tinha tido recentemente e lembrei que fragmentos menores entram em combustão mais rápido. O que eu fiz? No ápice de minha jumentice piquei todo papel em mil pedaços para serem queimados com um fósforo. É lógico que a gente não conseguiu terminar mais rápido. A outra equipe, em que ninguém tinha feito aula de química aparentemente, deixou o papel inteiro e simplesmente o queimou.

Apesar de termos fracassados em todos os exercícios, tivemos um comportamento excepcional e nosso time se manteve unido do início ao final do jogo enquanto a equipe vencedora teve briga de verdade. Nossa performance estava sendo avaliada não somente pelos instrutores do curso (que eram fuzileiros navais, diga-se de passagem), mas também por uma psicóloga que parecia uma alma penada seguindo a gente para todos os lugares e anotando tudo que ela via em uma prancheta.

No final, seria premiado não a melhor equipe, mas o melhor líder, aquele que havia combinado habilidade, resultado e comportamento ao longo das 24h, destacando-se dos demais. E aí está uma coisa que não entendo: todos nós sabíamos disso desde o início, por que então brigar entre a equipe sendo que a recompensa nem seria para o time vencedor? Tem gente que leva a vida a sério demais, não entendo. Digressões à parte, quando chegou no final eu já estava certa de quem levaria o prêmio: eu, obviamente. Eu já havia feito parte de vários cursos de liderança e ganhei quase todos. Desde minha pouca idade sempre me destaquei em grupos e tive comportamento contagiantemente exemplar. Dessa vez não seria diferente, pensava eu.

Ledo engano.

Nesse dia aconteceu algo que me trouxe aprendizado que trago para vida. No momento da premiação, a psicóloga foi a última a falar e apesar de todos os elogios que todos os instrutores me fizeram e que ela também me fez no início do discurso, o final foi incoerente e inesperado. A psicóloga disse que eu era uma pessoa certa demais e que de fato acertava muito em minhas colocações e comportamentos. Que de fato eu tinha uma “liderança nata”, mas que eu tinha um comportamento arrogante mascarado e que por causa disso eu não levaria o prêmio. Ela disse que dando aquele prêmio para mim ela estaria reforçando este comportamento em mim e que ela acreditava que eu poderia ser melhor do que eu já tinha me demonstrado capaz.

Cara coach, até hoje não sei se acho bom ou ruim aquele episódio.

Por um lado é claro que eu fiquei muito feliz porque se ela disse isso significa que ela percebeu em mim resiliência o suficiente para receber uma facada daquelas sem desmoronar. Por outro lado, acho que foi naquele momento que criei uma aversão em ocupar posições de liderança em dinâmicas de grupo. Acredita que até hoje eu pifo completamente se eu estiver em uma dinâmica de avaliação de grupo e eu for colocada como líder?

Desde então a arrogância tem sido um comportamento que estou sempre atenta para cortar pela raíz. Porém, “quem colhe rosas deve suportar os espinhos”, já dizia O Pequeno Príncipe. Eu tenho a impressão que querer desenvolver-se intelectualmente sem ser arrogante é o mesmo que tentar andar na chuva de guarda-chuva acreditando estar totalmente protegido.

Às vezes eu me flagro com as pessoas falando coisas que eu sei que são completamente absurdas e descabidas, mas eu sempre me pergunto qual é o limite entre o esclarecimento e o enaltecimento do ego culto. Confesso que é difícil saber quando a pessoa está querendo somente uma consolação e um apoio moral ou quando ela de fato está querendo uma opinião mas não sabe pedir diretamente. Como você faz, Coach?

Em um outro curso que fiz, alguns anos após o de Liderança, me percebi novamente sendo muito arrogante. A minha meta era fazer o curso B, porém, era norma da instituição que eu fizesse o curso A primeiro. Porém, eu já sabia o conteúdo do curso A de frente para trás, de cabeça para baixo e do avesso. Nada ali me surpreendia. E eu me vi obrigada a ter que passar oito dias em imersão, mais de 80 horas de curso ouvindo mais do mesmo sem nenhuma novidade.

Eu estava toda posuda, com aquele jeito de quem esnoba o lugar, a apostila, os colegas e o instrutor. Eu sabia todas as respostas, conhecia todos os vídeos, já tinha estudado todas as referências e conhecia mais livros do que era necessário. De fato eu sabia muito. E o pior, parece que quando você sabe muito a ingenuidade das pessoas te estressa! Aquelas pessoas com conhecimento limitado olhando para aquelas migalhas de conhecimento e ovacionando como se fosse um verdadeiro banquete intelectual. Insuportável! Eu sei que devo estar parecendo muito prepotente falando dessa forma, mas estou trazendo a verdade nua e crua como você me pediu.

Não sei direito por que aquela situação me estressava: se era porque eu achava que era obrigação daquelas pessoas ter lido o material antes do curso, ou se era pelo método, ou se era porque eu sabia que tinha coisa melhor e elas não deveriam ficar acreditando em qualquer coisa que lhes é dito… Enfim! Não sei. O que sei é que esse curso era dividido em dois módulos de 4 encontros e entre esses módulos tive tempo para respirar.

Fiquei pensando honestamente se era eu quem estava errada ou se era o mundo que estava errado. Estatisticamente se você estiver se fazendo essa pergunta em algum momento da sua existência, é você quem inequivocamente está errado (a). Impossível o planeta inteiro ter parado para conspirar contra um mero reles mortal. Interessante que no momento em que me fiz esses questionamentos lembrei-me na hora daquele curso de Liderança e decidi ter uma postura diferente no segundo módulo.

No primeiro dia do segundo módulo o instrutor perguntou se alguém tinha tido algum insight que queria compartilhar com o grupo naquele momento. Eu já havia decidido: eu mesma quebraria minha arrogância em mil pedaços naquele momento. Peguei o microfone com a mão tão trêmula que parecia estar fingindo o nervosismo que deveras sentia. Disse:

“Eu sei que nos últimos dias de curso eu tenho me mostrado muito certa de mim. É porque estou. Tenho apenas 19 anos e tenho muito mais experiência e cases de sucesso nessa área que a maior parte de vocês. Aprendi que o pedestal é o melhor lugar para ficar: as pessoas me respeitam apesar da minha pouca idade, aqui de alguma forma imponho autoridade. Contudo é fato que estou me prejudicando, prejudicando o grupo e não estou aprendendo nada aqui. Se eu já não tivesse mais nada a aprender, eu nem estaria mais viva. Então nesse instante eu desço do pedestal da arrogância e me coloco vulnerável à qualquer crítica que qualquer um quiser me fazer, seja sobre minha forma de vestir, falar, agir, não importa. Preciso aprender a me colocar no meu lugar. Não vou pedir desculpas porque não acredito nisso, acredito na mudança de comportamento e em resultados diferentes. Então somente obrigada por me ouvirem e por me permitirem compartilhar”.

Silêncio.

Alguns longos segundos depois outras pessoas pegaram o microfone e compartilharam outras coisas sobre suas vidas.

Coach, eu não sei se você já passou por isso mas para uma pessoa de ego inflado como eu estava na época era extremamente doloroso recolher-me à minha insignificância! Eu nunca cortei os pulsos, mas tenho uma convicção interna de que a dor deve ser tão grande quanto aquela que senti.

Depois daquele episódio o inesperado aconteceu: várias pessoas vieram falar comigo, elogiando-me pela minha postura e dizendo que queriam ter esse nível de autoconsciência na minha idade. Não! Por favor não! Era tudo que eu não queria ouvir! Nossa eu fiquei muito desesperada quando recebi esses elogios porque me senti como um balão sendo inflado novamente para ficar ainda maior do que eu estava no estado original. Uma mista sensação de prazer egótico com automutilação mental por não querer me permitir absorver a essência daqueles elogios.

Agora te digo Coach e você até sabe muito melhor do que eu: que diabos estou fazendo em uma empresa de cultura holocrática?

Como em uma busca incessante pela opção mais difícil, escolhi um modelo de gestão que eminentemente desfavorece o ego e favorece as habilidades, resultados e produtividade. É difícil, juro! Isso porque, mesmo que tenhamos centros de poder e autonomia distribuídos na nossa equipe ainda sou a pessoa mais experiente e mesmo que eu não queira me colocar em uma posição de clara hierarquia as pessoas me colocam lá espontaneamente. Ou seja, o que eu falo é altamente valorizado.

Às vezes me pergunto se eu contrato pessoas menos experientes para inconscientemente me manter nessa posição ou se de fato meu modelo de negócio favorece pessoas mais jovens.

Esses dias um prestador de serviço recém-contratado me chamou no WhatsApp: “Bom dia, chefa!”. Confesso em meio à minha vergonha que aquela foi uma sensação de poder extremamente prazerosa. Ninguém nunca tinha me chamado de chefa antes e ver alguém se curvando à minha autoridade em suas primeiras manifestações do dia é ótimo. Me permiti curtir aquele prazer por uma fração de segundo, longo o suficiente para ser lembrado, mas rápido o suficiente para não me acostumar. “Quem tem chefe é índio rsrs”, respondi “Você quem é o especialista nessa área! :D” – e eu ainda mandei uma carinha feliz, como se estivesse super satisfeita com essa autocastração.

Abraços,

Y.

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